Nota de Imprensa
8 de setembro de 2026
proTEJO exige divulgação pública do Plano de Emergência de Castelo de Bode: as sirenes estão instaladas, mas as populações continuam sem saber como agir perante os riscos em causa.
Mais de 30 torres com sirenes de alto débito estão a ser instaladas em Abrantes, Chamusca, Constância, Golegã, Tomar e Vila Nova da Barquinha — mas confirma-se que, até hoje, a EDP não realizou uma única sessão de esclarecimento junto das populações.
O proTEJO – Movimento pelo Tejo vem hoje tornar pública a sua posição sobre a segurança estrutural da Barragem de Castelo de Bode e a segurança das populações que vivem na sua Zona de Autossalvamento (ZAS), após confirmação de que a EDP está a instalar um sistema alargado de torres com sirenes de alto débito em pelo menos seis concelhos influenciados pela barragem: Abrantes, Chamusca, Constância, Golegã, Tomar e Vila Nova da Barquinha.
E denuncia: o Plano de Emergência Interno da barragem — o documento que define a Zona de Autossalvamento, os cenários de rotura e os procedimentos de aviso — continua fora do escrutínio público, e é admitido que a informação às populações só chegará no futuro, sem calendário conhecido, nem evidência de simulacros de evacuação e de sessões de esclarecimento às populações abrangidas, incluindo durante o período crítico de rebaixamento da albufeira previsto para 2027.
A Universidade das Nações Unidas (UNU) lançou um alerta global detalhado[1] sobre a vetustez (envelhecimento) das grandes barragens mundiais afirmando que a maioria das 58.700 grandes barragens do mundo, tendo sido construídas entre 1930 e 1970, já atingiu ou ultrapassou o limite tempo de vida útil, projetado entre 50 e 100 anos, expondo as populações que vivem a jusante a uma ameaça crescente para a segurança física, hídrica e económica.
Este envelhecimento manifesta-se através do desgaste estrutural (fugas, fissuras profundas, sobrecargas e, no limite, ruturas), do aumento dos orçamentos de reparação, da diminuição da capacidade de armazenamento devido à sedimentação das albufeiras e da redução da eficácia funcional da produção de energia hidroelétrica, no abastecimento público e na rega agrícola.
O impacto dos eventos meteorológicos extremos da crise climática atual cria um cenário de risco agravado em barragens projetadas com base em dados climáticos antigos, sendo que o aumento da frequência e gravidade de tempestades e a alteração nos padrões de precipitação submetem as barragens a pressões e volumes de água superiores aos seus limites originais de segurança, sobrecarregando os descarregadores de cheia e acelerando substancialmente o seu desgaste estrutural.
A barragem de Castelo de Bode atingiu 75 anos de exploração em 2026 e prepara-se para uma intervenção de manutenção de grande escala em 2027, que implicará o rebaixamento da albufeira em cerca de 16 metros. Estão a ser instaladas mais de 30 postos de sirene — um passo positivo, mas que o Movimento proTEJO considera insuficiente e mal conduzido, uma vez que não foi previamente acompanhado de informação pública clara e sistemática, nem testado um plano de emergência junto das populações abrangidas.
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“Uma sirene instalada sem que a população saiba o que fazer quando ela toca, só é medida que baste para quem confia na sorte, para os outros é geradora de sentimentos de insegurança e abandono. Continuar a evitar a divulgação da informação e do conhecimento quanto aos riscos associados às barragens, só contribui para fazer crescer a falta de confiança nas instituições e o sentimento de abandono das populações à sua sorte. O dever de acautelar a segurança de uma barragem não se mede só em betão, torres com sirenes e avisos — mede-se também na capacitação das pessoas a jusante para tomarem decisões informadas e para reagirem em minutos.” |
O que o proTEJO apoia
O movimento reconhece o mérito das medidas recentes de reforço da segurança física e da capacidade de aviso à população na área da Barragem de Castelo de Bode, cobrindo praticamente toda a área de influência da infraestrutura.
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Rede de torres com sirenes confirmada em seis concelhos • Abrantes — entre 6 e 8 torres, nas freguesias de Martinchel, Rio de Moinhos e Tramagal. • Chamusca — 6 torres, todas na freguesia de Carregueira, desde a foz do Zêzere e o Arripiado até à Carregueira. • Constância — 6 torres, distribuídas por Constância, Montalvo e Santa Margarida da Coutada. • Golegã — 1 torre, junto à Quinta da Cardiga. • Tomar — 12 torres (7 em São Pedro de Tomar, 2 na União de Freguesias de Madalena e Beselga, 2 na União de Freguesias Tomar – São João Baptista e Santa Maria dos Olivais, 1 na Asseiceira), além das já existentes junto à Barragem do Carril. • Vila Nova da Barquinha — 4 torres, na Praia do Ribatejo, no Polígono de Tancos, em Tancos e na própria vila. Cada torre tem 11 metros de altura, painel fotovoltaico próprio e integra o Sistema de Aviso às Populações previsto nos Planos de Emergência Internos das grandes barragens, em articulação com a APA e a ANEPC. |
O que o proTEJO exige que mude
1. Divulgação pública de um resumo acessível do Plano de Emergência Interno
O PEI é hoje um documento técnico aprovado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), enquanto Autoridade Nacional de Segurança de Barragens, distribuído às entidades de proteção civil consideradas relevantes — mas não é, na prática, um documento de fácil acesso ao cidadão comum. O proTEJO exige que a EDP, dona de obra, e a APA disponibilizem publicamente um resumo claro do plano: extensão da ZAS, cenários de risco considerados e procedimentos de autoproteção.
2. Campanhas de informação regulares junto das populações da ZAS
A EDP deve assumir publicamente um calendário vinculativo para a realização de sessões públicas em todas as freguesias abrangidas nos seis concelhos identificados, a distribuição de materiais informativos porta-a-porta e a comunicação nas escolas e juntas de freguesia, explicando também o significado dos sinais sonoros das sirenes, a localização dos pontos de encontro e as rotas de evacuação.
3. Realização e divulgação de simulacros de evacuação
Testes sonoros isolados das sirenes não substituem exercícios de evacuação com participação das populações e das entidades de proteção civil, com resultados publicamente reportados, em todos os seis concelhos agora identificados — prática já comum noutros aproveitamentos hidroelétricos e indispensável para validar a eficácia real do sistema.
4. Reforço temporário da informação pública durante a intervenção de 2027
O rebaixamento de cerca de 16 metros da albufeira, entre junho e outubro de 2027, é uma operação hidráulica atípica. O proTEJO exige um plano de comunicação específico para este período, incluindo calendário público das fases de esvaziamento e enchimento e dos parâmetros de monitorização estrutural.
Riscos identificados
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1. Reação desorganizada por desconhecimento dos sinais Com mais de 30 torres a cobrir seis concelhos, o risco de confusão em caso de ativação real aumenta proporcionalmente ao número de populações que nunca ouviram explicar o que os sinais significam. Sem campanhas de esclarecimento, uma sirene pode gerar confusão em vez de resposta eficaz. 2. Tempo de reação limitado na Zona de Autossalvamento A própria definição da ZAS pressupõe não haver tempo para intervenção externa — o que torna a autoproteção informada decisiva nos primeiros minutos. 3. Opacidade do Plano de Emergência Interno A ausência de acesso público facilitado dificulta o escrutínio cívico e a confiança das populações no sistema de segurança. 4. Sistema nunca testado com a população Sem simulacros reais, não há garantia de que o sistema funcione como previsto numa emergência genuína. 5. Risco acrescido durante a intervenção de 2027 O rebaixamento de 16 metros da albufeira é uma operação atípica que exige comunicação reforçada, ainda não anunciada. |
Um movimento, não apenas um documento
Há cerca de dezassete anos que o proTEJO acompanha os processos de política de água na bacia do Tejo. A segurança das populações a jusante de Castelo de Bode junta-se a essa missão: não basta que a infraestrutura seja segura no papel, nem que existam torres — é preciso que as pessoas que vivem à sua sombra saibam, com clareza, a razão das obras e como agir.
“A transparência sobre o risco não é alarmismo — é a condição mínima para que as medidas de reforço da segurança de uma barragem sejam, de facto, entendidas como absolutamente incontornáveis para reduzir os riscos de quem vive perto dela.”
Síntese
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O proTEJO saúda a confirmação de que a rede de sirenes de Castelo de Bode cobre todos os seis concelhos, mas exige um calendário vinculativo de informação pública, simulacros testados e acesso facilitado ao Plano de Emergência Interno. • Posição: apoio à rede de sirenes confirmada em Abrantes, Chamusca, Constância, Golegã, Tomar e Vila Nova da Barquinha • 4 exigências concretas apresentadas à EDP e à APA • 5 riscos identificados, incluindo a ausência de informação pública • Contexto: intervenção de manutenção da barragem prevista para junho–outubro de 2027 |
Contactos para a imprensa
Ana Silva — Porta-voz do proTEJO — +351 922 273 439
Paulo Constantino — Porta-voz do proTEJO — +351 919 061 330
Email: protejo.movimento@gmail.com
Blog: movimentoprotejo.blogspot.com
[1] Relatório “Ageing Water Infrastructure: An Emerging Global Risk” (Infraestrutura Hídrica Envelhecida: Um Risco Global Emergente), January 2021, United Nations University (UNU) (DOI:10.13140/RG.2.2.29149.44003).
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