Somos um movimento de cidadania em defesa do Tejo denominado "Movimento Pelo Tejo" (abreviadamente proTEJO) que congrega todos os cidadãos e organizações da bacia do TEJO em Portugal, trocando experiências e informação, para que se consolidem e amplifiquem as distintas actuações de organização e mobilização social.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

proTEJO alerta: novas barragens, açudes, transvases e centros de dados no Tejo avançam "às cegas", sem avaliação de impacto na gestão da água

NOTA DE IMPRENSA

 
18 de setembro de 2026

“proTEJO alerta: novas barragens, açudes, transvases e centros de dados no Tejo avançam "às cegas", sem avaliação de impacto na gestão da água"

O proTEJO – Movimento pelo Tejo apresenta hoje as suas alegações às Questões Significativas da Gestão da Água (QSiGA) do 4.º ciclo de planeamento hidrológico 2028/2033 da Região Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste, em consulta pública pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Este documento sucede às alegações que o proTEJO apresentou em 15 de setembro de 2020 às QSiGA do 3.º ciclo (2022-2027), e retoma explicitamente a sua argumentação de fundo: a de que a gestão da água não pode continuar a ser pensada como um exercício técnico isolado das causas que estão a montante da crise ecológica — os modos de produção e consumo insustentáveis — sob pena de os planos de gestão de bacia hidrográfica se limitarem, ciclo após ciclo, a mitigar efeitos cada vez mais graves e complexos, sem nunca travarem as suas causas. Mantemos, seis anos depois, a mesma convicção: sem ecologia não há biologia, e sem a preservação das condições que sustentam os ecossistemas não há Sustentabilidade da Vida — nem qualquer sustentabilidade económica ou social que a substitua.

“Sem ecologia não há biologia — e sem caudais ecológicos e conectividade fluvial não há futuro para a bacia do Tejo.”

O movimento proTEJO recorda que a análise destas questões tem como objetivo principal avaliar as medidas a adotar para atingir o bom estado ecológico de todas as massas de água, objetivo que não tem sido alcançado, uma vez que nos relatórios entre ciclos de planeamento se constata uma deterioração crescente. Por isso constitui para nós um uma obrigação de lançar um alerta sobre os indicadores oficiais agora publicados que confirmam uma bacia hidrográfica sob pressão crítica — precisamente quando é lançado, sem qualquer avaliação, um investimento superior a 5.000 milhões de euros em novas barragens e açudes nos últimos troços livres do rio Tejo.

  O QUE O proTEJO OBSERVA E EXIGE

1. Os números divulgados pela própria APA são alarmantes:

a. O estado das águas subterrâneas da bacia degradou-se de forma acentuada: segundo os dados oficiais, a percentagem de massas de água subterrânea em bom estado caiu de cerca de 90% para cerca de 60% entre os dois últimos ciclos de planeamento — e metade das massas de água subterrânea da região está hoje classificada como estando "em risco".

b. 98% das grandes barragens da bacia do Tejo não têm qualquer dispositivo que permita a passagem de peixes, e 93% não têm um regime de caudais ecológicos definido — os dois piores indicadores de toda a análise, revelando valores que não melhoraram desde o ciclo de planeamento anterior.

“São os piores indicadores desde o ciclo de planeamento anterior. Não é uma estatística. É um rio que perde, ciclo após ciclo, a capacidade de se regenerar a si próprio.”

2. Nenhum documento oficial das QSiGA do 4.º ciclo menciona o programa "Água Que Une", que prevê a construção da barragem do Alvito, no rio Ocreza, do açude de Constância / Praia do Ribatejo, no rio Tejo, e do transvase da bacia do Tejo para a sub-bacia do Caia, na bacia do Guadiana, o Programa Nacional de Regadio, os projetos de dois centros de dados anunciados para o concelho de Abrantes — Hyperion, em Alvega, e EDC One, no Pego, e o Plano Nacional de Restauro da Natureza. Além disso, não existe referência ao “Projeto Tejo” de mais quatro açudes e duas barragens nos últimos 127 quilómetros de rio Tejo ainda livre entre Abrantes e Lisboa.

3. O proTEJO exige que estes programas e projetos sejam formalmente avaliado face às próprias questões significativas da água — caudais ecológicos, conectividade fluvial, escassez de água e alterações do regime hidrológico — antes de qualquer decisão de aprovação, e pede a suspensão cautelar de novas infraestruturas hidráulicas até essa avaliação estar concluída.

“Não é possível planear como alcançar o bom estado das massas de água, repetindo cegamente soluções que são parte importante do problema, nem planear caudais ecológicos e conectividade fluvial para a bacia do Tejo com base num documento que ignora, por completo, o maior programa de novas barragens e transvases em preparação para esse mesmo rio.”

  O QUE O proTEJO APOIA

Dois pedidos históricos do proTEJO foram, pela primeira vez, formalmente acolhidos: a APA criou uma QSiGA autónoma dedicada à cooperação transfronteiriça com Espanha — tema que o proTEJO reclamava desde 2020 — e uma nova QSiGA que obriga a articular o Plano de Gestão da Região Hidrográfica (PGRH) com outros instrumentos de planeamento do território. São passos que o movimento saúda expressamente.

O Que a Europa Já Sabe Fazer

O proTEJO recorda que, em 2025, foram removidas na Europa mais de 600 barreiras fluviais, reabrindo mais de 3.700 km de rios — o quinto ano consecutivo de máximos históricos nesta matéria, alinhado com a meta europeia de 25.000 km de rios livres até 2030 da Estratégia Europeia para a Biodiversidade. Casos como o do rio Sélune, em França, ou do rio Isar, em Munique, demonstram que a remoção de barragens obsoletas devolve aos rios espécies migradoras, qualidade da água e valor para as populações ribeirinhas.

É essa a direção que o proTEJO pede para a bacia do Tejo — não à construção de novas barreiras no seu último troço ainda livre em Portugal, nem ao esgotamento do seu caudal de água pela computação em centros de dados.

Um movimento, não apenas um documento

Há cerca de dezassete anos que o proTEJO acompanha os processos de planeamento da gestão da água na bacia do Tejo e decidiu apresentar os seus pontos de reconhecimento e de discordância quanto ao documento das Questões Significativas da Água do 4.º ciclo, submetendo as suas alegações formais à Agência Portuguesa do Ambiente por uma questão de responsabilidade cidadã.

A Vida que o Tejo sustenta merece mais do que silêncio!

Ver Alegações do proTEJO às Questões Significativas da Água do 4.º ciclo de planeamento 2028/2033

Contactos para a imprensa

Ana Silva — Porta-voz do proTEJO — +351 922 273 439

Paulo Constantino — Porta-voz do proTEJO — +351 919 061 330

Email: protejo.movimento@gmail.com

Blog: movimentoprotejo.blogspot.com

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Webinar "Água Que Une: Políticas vs Conservação" | 16 de setembro de 2026 | Sessão no YouTube

"Na noite de 16 de setembro, o #MovRioDouro, em parceria com a Plataforma Água Sustentável – PAS e o ProTEJO – Movimento Pelo Tejo, voltou a reunir participantes para mais um webinar dedicado a um tema particularmente atual: o futuro da gestão da água em Portugal e a sua articulação com a conservação dos rios e dos ecossistemas.

Caso não tenha conseguido acompanhar a sessão em direto, a gravação do webinar já está disponível no nosso canal de YouTube, onde pode também encontrar os restantes debates promovidos no âmbito desta iniciativa.

Desta vez, a conversa partiu da recém-aprovada Estratégia «Água Que Une», que marca uma nova etapa na gestão dos recursos hídricos em Portugal. Perante cenários de maior escassez e a necessidade de reforçar a segurança hídrica, o debate centrou-se numa questão essencial: como responder às necessidades de água do país sem comprometer a proteção dos ecossistemas e a sustentabilidade dos rios?

Para colocar em diálogo diferentes perspetivas sobre este desafio, a sessão contou com a participação de Macário Correia, Presidente da AdP AQUA, entidade responsável pela gestão, execução e coordenação da Estratégia «Água Que Une», e de Sara Correia, Policy Officer da ZERO – Associação Sistema Terrestre Sustentável.

Ao longo da conversa, foram abordadas as prioridades e opções previstas para a gestão da água em Portugal, procurando perceber de que forma os objetivos de segurança hídrica podem ser conciliados com as necessidades de conservação da natureza. O debate permitiu ainda confrontar diferentes perspetivas sobre a gestão dos recursos disponíveis, a resposta à escassez e o lugar que os rios e os ecossistemas devem ocupar nas decisões sobre o futuro da água no país.

Se não teve oportunidade de assistir em direto, ou se quer rever a conversa, veja agora o webinar completo no nosso canal de YouTube."

terça-feira, 8 de setembro de 2026

proTEJO exige divulgação pública do Plano de Emergência de Castelo de Bode: as sirenes estão instaladas, mas as populações continuam sem saber como agir perante os riscos em causa

 Nota de Imprensa

8 de setembro de 2026 

proTEJO exige divulgação pública do Plano de Emergência de Castelo de Bode: as sirenes estão instaladas, mas as populações continuam sem saber como agir perante os riscos em causa.

Mais de 30 torres com sirenes de alto débito estão a ser instaladas em Abrantes, Chamusca, Constância, Golegã, Tomar e Vila Nova da Barquinha — mas confirma-se que, até hoje, a EDP não realizou uma única sessão de esclarecimento junto das populações.

O proTEJO – Movimento pelo Tejo vem hoje tornar pública a sua posição sobre a segurança estrutural da Barragem de Castelo de Bode e a segurança das populações que vivem na sua Zona de Autossalvamento (ZAS), após confirmação de que a EDP está a instalar um sistema alargado de torres com sirenes de alto débito em pelo menos seis concelhos influenciados pela barragem: Abrantes, Chamusca, Constância, Golegã, Tomar e Vila Nova da Barquinha.

E denuncia: o Plano de Emergência Interno da barragem — o documento que define a Zona de Autossalvamento, os cenários de rotura e os procedimentos de aviso — continua fora do escrutínio público, e é admitido que a informação às populações só chegará no futuro, sem calendário conhecido, nem evidência de simulacros de evacuação e de sessões de esclarecimento às populações abrangidas, incluindo durante o período crítico de rebaixamento da albufeira previsto para 2027.

A Universidade das Nações Unidas (UNU) lançou um alerta global detalhado[1] sobre a vetustez (envelhecimento) das grandes barragens mundiais afirmando que a maioria das 58.700 grandes barragens do mundo, tendo sido construídas entre 1930 e 1970, já atingiu ou ultrapassou o limite tempo de vida útil, projetado entre 50 e 100 anos, expondo as populações que vivem a jusante a uma ameaça crescente para a segurança física, hídrica e económica.

Este envelhecimento manifesta-se através do desgaste estrutural (fugas, fissuras profundas, sobrecargas e, no limite, ruturas), do aumento dos orçamentos de reparação, da diminuição da capacidade de armazenamento devido à sedimentação das albufeiras e da redução da eficácia funcional da produção de energia hidroelétrica, no abastecimento público e na rega agrícola.

O impacto dos eventos meteorológicos extremos da crise climática atual cria um cenário de risco agravado em barragens projetadas com base em dados climáticos antigos, sendo que o aumento da frequência e gravidade de tempestades e a alteração nos padrões de precipitação submetem as barragens a pressões e volumes de água superiores aos seus limites originais de segurança, sobrecarregando os descarregadores de cheia e acelerando substancialmente o seu desgaste estrutural. 

A barragem de Castelo de Bode atingiu 75 anos de exploração em 2026 e prepara-se para uma intervenção de manutenção de grande escala em 2027, que implicará o rebaixamento da albufeira em cerca de 16 metros. Estão a ser instaladas mais de 30 postos de sirene — um passo positivo, mas que o Movimento proTEJO considera insuficiente e mal conduzido, uma vez que não foi previamente acompanhado de informação pública clara e sistemática, nem testado um plano de emergência junto das populações abrangidas.

“Uma sirene instalada sem que a população saiba o que fazer quando ela toca, só é medida que baste para quem confia na sorte, para os outros é geradora de sentimentos de insegurança e abandono.

Continuar a evitar a divulgação da informação e do conhecimento quanto aos riscos associados às barragens, só contribui para fazer crescer a falta de confiança nas instituições e o sentimento de abandono das populações à sua sorte.

O dever de acautelar a segurança de uma barragem não se mede só em betão, torres com sirenes e avisos — mede-se também na capacitação das pessoas a jusante para tomarem decisões informadas e para reagirem em minutos.”

O que o proTEJO apoia

O movimento reconhece o mérito das medidas recentes de reforço da segurança física e da capacidade de aviso à população na área da Barragem de Castelo de Bode, cobrindo praticamente toda a área de influência da infraestrutura. 

Rede de torres com sirenes confirmada em seis concelhos

• Abrantes — entre 6 e 8 torres, nas freguesias de Martinchel, Rio de Moinhos e Tramagal.

• Chamusca — 6 torres, todas na freguesia de Carregueira, desde a foz do Zêzere e o Arripiado até à Carregueira.

• Constância — 6 torres, distribuídas por Constância, Montalvo e Santa Margarida da Coutada.

• Golegã — 1 torre, junto à Quinta da Cardiga.

• Tomar — 12 torres (7 em São Pedro de Tomar, 2 na União de Freguesias de Madalena e Beselga, 2 na União de Freguesias Tomar – São João Baptista e Santa Maria dos Olivais, 1 na Asseiceira), além das já existentes junto à Barragem do Carril.

• Vila Nova da Barquinha — 4 torres, na Praia do Ribatejo, no Polígono de Tancos, em Tancos e na própria vila.

Cada torre tem 11 metros de altura, painel fotovoltaico próprio e integra o Sistema de Aviso às Populações previsto nos Planos de Emergência Internos das grandes barragens, em articulação com a APA e a ANEPC.

Notícia: Antena Livre “Segurança: EDP está a instalar sistema de alerta relacionado com Barragem do Castelo de Bode”

O que o proTEJO exige que mude

1. Divulgação pública de um resumo acessível do Plano de Emergência Interno

O PEI é hoje um documento técnico aprovado pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA), enquanto Autoridade Nacional de Segurança de Barragens, distribuído às entidades de proteção civil consideradas relevantes — mas não é, na prática, um documento de fácil acesso ao cidadão comum. O proTEJO exige que a EDP, dona de obra, e a APA disponibilizem publicamente um resumo claro do plano: extensão da ZAS, cenários de risco considerados e procedimentos de autoproteção.

2. Campanhas de informação regulares junto das populações da ZAS

A EDP deve assumir publicamente um calendário vinculativo para a realização de sessões públicas em todas as freguesias abrangidas nos seis concelhos identificados, a distribuição de materiais informativos porta-a-porta e a comunicação nas escolas e juntas de freguesia, explicando também o significado dos sinais sonoros das sirenes, a localização dos pontos de encontro e as rotas de evacuação.

3. Realização e divulgação de simulacros de evacuação

Testes sonoros isolados das sirenes não substituem exercícios de evacuação com participação das populações e das entidades de proteção civil, com resultados publicamente reportados, em todos os seis concelhos agora identificados — prática já comum noutros aproveitamentos hidroelétricos e indispensável para validar a eficácia real do sistema.

4. Reforço temporário da informação pública durante a intervenção de 2027

O rebaixamento de cerca de 16 metros da albufeira, entre junho e outubro de 2027, é uma operação hidráulica atípica. O proTEJO exige um plano de comunicação específico para este período, incluindo calendário público das fases de esvaziamento e enchimento e dos parâmetros de monitorização estrutural.

Riscos identificados

1. Reação desorganizada por desconhecimento dos sinais

Com mais de 30 torres a cobrir seis concelhos, o risco de confusão em caso de ativação real aumenta proporcionalmente ao número de populações que nunca ouviram explicar o que os sinais significam. Sem campanhas de esclarecimento, uma sirene pode gerar confusão em vez de resposta eficaz.

2. Tempo de reação limitado na Zona de Autossalvamento

A própria definição da ZAS pressupõe não haver tempo para intervenção externa — o que torna a autoproteção informada decisiva nos primeiros minutos.

3. Opacidade do Plano de Emergência Interno

A ausência de acesso público facilitado dificulta o escrutínio cívico e a confiança das populações no sistema de segurança.

4. Sistema nunca testado com a população

Sem simulacros reais, não há garantia de que o sistema funcione como previsto numa emergência genuína.

5. Risco acrescido durante a intervenção de 2027

O rebaixamento de 16 metros da albufeira é uma operação atípica que exige comunicação reforçada, ainda não anunciada.

Um movimento, não apenas um documento

Há cerca de dezassete anos que o proTEJO acompanha os processos de política de água na bacia do Tejo. A segurança das populações a jusante de Castelo de Bode junta-se a essa missão: não basta que a infraestrutura seja segura no papel, nem que existam torres — é preciso que as pessoas que vivem à sua sombra saibam, com clareza, a razão das obras e como agir.

“A transparência sobre o risco não é alarmismo — é a condição mínima para que as medidas de reforço da segurança de uma barragem sejam, de facto, entendidas como absolutamente incontornáveis para reduzir os riscos de quem vive perto dela.”

Síntese

O proTEJO saúda a confirmação de que a rede de sirenes de Castelo de Bode cobre todos os seis concelhos, mas exige um calendário vinculativo de informação pública, simulacros testados e acesso facilitado ao Plano de Emergência Interno.

• Posição: apoio à rede de sirenes confirmada em Abrantes, Chamusca, Constância, Golegã, Tomar e Vila Nova da Barquinha

• 4 exigências concretas apresentadas à EDP e à APA

• 5 riscos identificados, incluindo a ausência de informação pública

  Contexto: intervenção de manutenção da barragem prevista para junho–outubro de 2027

Contactos para a imprensa

Ana Silva — Porta-voz do proTEJO — +351 922 273 439

Paulo Constantino — Porta-voz do proTEJO — +351 919 061 330

Email: protejo.movimento@gmail.com

Blog: movimentoprotejo.blogspot.com


[1] Relatório “Ageing Water Infrastructure: An Emerging Global Risk” (Infraestrutura Hídrica Envelhecida: Um Risco Global Emergente), January 2021, United Nations University (UNU) (DOI:10.13140/RG.2.2.29149.44003).