Somos um movimento de cidadania em defesa do Tejo denominado "Movimento Pelo Tejo" (abreviadamente proTEJO) que congrega todos os cidadãos e organizações da bacia do TEJO em Portugal, trocando experiências e informação, para que se consolidem e amplifiquem as distintas actuações de organização e mobilização social.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

proTEJO exige lei para impedir que centros de dados sequem o rio Tejo

 
NOTA DE IMPRENSA
 22 de setembro de 2026

proTEJO exige lei para impedir que centros de dados sequem o rio Tejo

Dois centros de dados anunciados para o concelho de Abrantes — Hyperion, em Alvega, e EDC One, junto ao Pego — podem consumir em conjunto até 4.380 GWh de eletricidade por ano: quase 29 vezes o consumo de todo o concelho. Consoante a tecnologia de arrefecimento escolhida — que nenhum dos dois promotores revelou até hoje —, o consumo de água pode variar entre 3,6 e 22,2 milhões de litros por dia.

O proTEJO – Movimento pelo Tejo vem tomar posição pública sobre os dois centros de dados anunciados para o concelho de Abrantes. O movimento reconhece o valor da modernização digital e da atração de investimento para o Médio Tejo, mas exige que a autorização de qualquer um dos dois projetos — Hyperion, em Alvega, e EDC One, no Pego — fique condicionada à realização de um Estudo de Impacte Ambiental cumulativo, prévio a qualquer decisão de licenciamento.

E denuncia: nenhum dos dois projetos apresentou, até hoje, um Estudo de Impacte Ambiental — a Agência Portuguesa do Ambiente remeteu essa exigência para depois da decisão de viabilidade urbanística, já tomada. E a Zona Livre Tecnológica do Pego, criada por lei para testar tecnologias-piloto de energias renováveis, está a servir de base legal a duas das maiores infraestruturas industriais alguma vez propostas para o Médio Tejo. Os centros de dados chegam, além disso, numa altura em que o rio Tejo já enfrenta outras pressões que se agravam e que raramente chegam à agenda política — de Espanha a Portugal, da energia à agricultura, como esta nota também documenta.

"O Tejo já não tem margem para ser a torre de arrefecimento da inteligência artificial europeia. Quem quiser instalar-se na sua bacia tem de provar, primeiro, que não vai precisar da sua água."

  O QUE O proTEJO APOIA

O proTEJO reconhece o valor da reconversão energética da antiga Central do Pego — hoje a dar lugar a projetos de energia solar, eólica e armazenamento em baterias — uma região historicamente penalizada pelo despovoamento e pela falta de investimento qualificado.

 

  O QUE O proTEJO EXIGE QUE MUDE

1. Divulgação pública da tecnologia de arrefecimento e do WUE de projeto

A Hyperion e a EDC One devem revelar, antes de qualquer licenciamento, que sistema de arrefecimento vão usar e qual o consumo de água esperado por unidade de energia (WUE), tal como a Start Campus já fez em Sines.

2. Estudo de Impacte Ambiental cumulativo de todas as novas pressões sobre a bacia do Tejo, prévia ao licenciamento

Os dois projetos partilham o mesmo ponto de ligação à rede e a mesma bacia hidrográfica; têm de ser avaliados em conjunto, e antes — não depois — de qualquer decisão de viabilidade.

Nenhuma autorização — para os centros de dados de Abrantes, para a bombagem reversível em Espanha, para o açude de Constância / Praia do Ribatejo, a barragem do Alvito ou para o transvase da bacia do Tejo a partir da albufeira do Fratel para a sub-bacia do Caia, na bacia do Guadiana — deve avançar isoladamente. O rio Tejo não pode continuar a ser gerido projeto a projeto com avaliação isolada das pressões.

3. Reavaliação da escala territorial da Zona Livre Tecnológica do Pego

Um regime concebido para testes-piloto de energias renováveis não pode servir de enquadramento legal a infraestrutura industrial de milhares de milhões de euros, sob pena de se tornar um precedente replicável em todo o país.

4. Sessões públicas de esclarecimento em Alvega e na Concavada

As populações diretamente afetadas têm direito a sessões presenciais dedicadas e a um mecanismo vinculativo de partilha de benefícios — não apenas a promessas genéricas de emprego.

5. Legislar limites máximos vinculativos de consumo

Portugal deve seguir o exemplo espanhol e fixar, por decreto-lei, valores máximos de PUE (Power Usage Effectiveness ou Eficácia no Uso da Energia). e de WUE (Water Usage Effectiveness ou Eficácia no Uso da Água) — e não apenas indicadores de reporte —, acompanhados de um limite ao consumo de solo por MW instalado.

6. Publicação por defeito dos dados de desempenho, por centro de dados

Com a confidencialidade sujeita a justificação fundamentada perante a entidade reguladora — e não invocável de forma genérica.

7. Regime de penalizações graduadas ligado ao desempenho ambiental

Substituir a coima genérica por incumprimento de reporte por um sistema de taxas escalonadas e pela possibilidade de perda da licença de ligação em caso de incumprimento grave e reiterado.

8. Salvaguarda expressa da autonomia municipal

Uma lei nacional que fixe níveis mínimos de exigência ambiental, mas que reconheça explicitamente o direito de cada município impor condições mais restritivas — travando qualquer leitura de que estatutos como o PIN ou regimes como a ZLT esvaziam essa competência.

A ESCOLHA QUE NINGUÉM REVELOU: ENTRE 1 E 22 MILHÕES DE LITROS DE ÁGUA POR DIA

A diferença entre um centro de dados hidricamente responsável e um centro de dados hidricamente insustentável não está na escala do investimento — está numa escolha de engenharia. Aplicando à potência conjunta dos dois projetos de Abrantes (500 MW) os indicadores internacionais de eficiência hídrica (WUE), o proTEJO estima que o consumo de água, a plena capacidade, pode variar entre 3,6 milhões de litros por dia — com arrefecimento em circuito fechado ou liquid-to-chip — e 22,2 milhões de litros por dia, com o arrefecimento evaporativo convencional, ainda hoje o mais comum no setor. É uma diferença de mais de seis vezes, para exatamente a mesma capacidade de computação.

Esta amplitude não é uma curiosidade técnica: instala-se numa bacia hidrográfica que a própria Agência Portuguesa do Ambiente apurou um índice de escassez elevado, de 48%, quando se prevê que os dois centros de dados entrem em funcionamento —, e onde 60% das massas de água superficiais e 40% das subterrâneas já se encontram abaixo do "Bom Estado". Alternativas tecnológicas existem e já são usadas em Portugal: a Covilhã arrefece a ar, sem consumo de água relevante; Sines está a construir um circuito fechado a água do mar.

Mesmo assim, o cenário mais favorável de consumo de água em plena capacidade dos dois centros de dados - 3,6 milhões de litros por dia — corresponde a 1.314 hm3 por ano, ou seja, cerca de metade de 2.700 hm3 que é o atual caudal mínimo anual afluente de Espanha nos termos da Convenção de Albufeira.

  PORTUGAL PRECISA DE UMA LEI — NÃO APENAS DE UM PLANO

Enquanto Espanha avança para um decreto que impõe, por lei, um teto máximo de 0,1 litros de água por quilowatt-hora e de 1,15 no indicador de eficiência energética a qualquer centro de dados que queira ligar-se à rede elétrica — com penalizações em caso de incumprimento grave, e perda do direito de ligação em caso de reincidência —, Portugal continua sem qualquer limite numérico vinculativo. O Plano Nacional de Centros de Dados é, na sua essência, um plano de atração de investimento e de simplificação processual: define prazos máximos para licenciar, não consumos máximos para autorizar.

Esta assimetria não é uma questão técnica menor. Se o limite espanhol de WUE fosse aplicado aos centros de dados de Abrantes, nenhum dos três cenários de arrefecimento identificados nesta análise — nem sequer o mais eficiente — cumpriria o requisito.

O proTEJO defende que Portugal siga o exemplo espanhol e vá mais além:

· fixando limites máximos vinculativos ao consumo de água, de eletricidade e de solo por unidade de capacidade instalada;

· obrigando à publicação por defeito — e não apenas mediante pedido — dos dados de desempenho hídrico e energético de cada centro de dados individualmente identificado, com a confidencialidade como exceção fundamentada e não como regra;

· salvaguardando explicitamente a autonomia dos municípios para impor condições ambientais mais exigentes do que as fixadas a nível nacional; e

·  substituindo o regime de coima genérica do Decreto-Lei n.º 84/2024 — hoje limitado a punir a falta de reporte — por um regime de penalizações graduadas e cumulativas semelhante ao espanhol, que puna o efetivo incumprimento do desempenho ambiental.

Nenhuma destas exigências é uma inovação regulatória extrema: são, na sua maioria, transposições diretas de mecanismos que o próprio Governo espanhol já desenhou, testou em consulta pública e está prestes a aprovar num país vizinho, com condições climáticas e hídricas comparáveis às do Médio Tejo. Não legislar com o mesmo rigor não é uma escolha neutra — é, na prática, escolher que os centros de dados que Espanha torna mais caros e mais condicionados encontrem em Portugal, e no rio Tejo, o destino mais barato e menos escrutinado.

NÃO É SÓ A MODERNIZAÇÃO DIGITAL: QUATRO PRESSÕES JÁ PESAM SOBRE O RIO TEJO

Os centros de dados de Abrantes não pedem água a um rio de recursos abundantes, mas a um rio que, neste preciso momento, enfrenta pelo menos mais quatro pressões quantitativas em curso ou em estudo — três delas avançadas pelo próprio Estado português, uma por Espanha — e que raramente chegam à agenda política hoje concentrada na modernização digital.

1. Ausência de um regime de caudais ecológicos — e a bombagem reversível em Espanha

Portugal e Espanha nunca definiram cientificamente os caudais ecológicos para os pontos de controlo da Convenção de Albufeira (Cedillo e Ponte de Muge), como a Diretiva Quadro da Água exige desde 2000 — e, na parte portuguesa da bacia, 93% das grandes barragens não têm sequer um regime de caudal ecológico definido. Este vazio ganhou urgência com o anúncio, pela Iberdrola, de dois sistemas de bombagem hidroelétrica reversível nas barragens espanholas de Alcântara e Valdecañas, que devolvem a água turbinada para montante em circuito parcialmente fechado. Segundo o Movimento proTEJO, o resultado seria Portugal deixar de receber, como acontece hoje, mais do dobro do caudal mínimo anual da Convenção — passando a receber apenas os 2.700 hectómetros cúbicos de caudal mínimo, um valor que o movimento qualifica como "caudal de ano de seca", fixado na Convenção de Albufeira com base em estudos anteriores à própria Diretiva Quadro da Água. O proTEJO deu parecer negativo ao projeto de Alcântara e apresentou junto da Comissão Europeia uma queixa denunciando a não implementação de caudais ecológicos, subscrita por 31 organizações portuguesas e espanholas.

2. Novas barragens e açudes para regadio em Portugal — o caso de Constância

A Estratégia Nacional "Água Que Une" (aprovada em Conselho de Ministros em junho de 2026) inclui o Empreendimento de Fins Múltiplos do Médio Tejo — cerca de 1.350 milhões de euros —, que prevê um novo açude entre Constância e a Praia do Ribatejo, em Vila Nova da Barquinha. Os próprios documentos técnicos do projeto admitem cenários de caudal "praticamente nulo" junto ao Castelo de Almourol em julho e agosto, sem avaliação de impacto sobre espécies migratórias como o sável e a lampreia.

3. Um rio cada vez mais fragmentado

Ao açude de Constância somam-se a barragem do Alvito no rio Ocreza (≈360 milhões de euros, para expansão da rega no Ribatejo) e mais quatro açudes e duas barragens — em média um a cada 20 km — nos últimos 127 quilómetros de rio Tejo ainda livre entre Abrantes e Lisboa (≈4.500 milhões de euros) promovidos pelo “Projeto Tejo”. No total, mais de 5.000 milhões de euros em novas barreiras fluviais — cerca de 26 vezes o investimento do programa nacional de restauro PRO~RIOS —, numa bacia onde 98% das grandes barragens não têm qualquer dispositivo de passagem para peixes.

4. Um transvase para fora da bacia — do Tejo para o Guadiana

A mesma estratégia contempla um estudo de viabilidade para a construção de um transvase desde a bacia do Tejo, a partir da barragem do Fratel localizada no Alto Tejo, até à sub-bacia do rio Caia, na bacia do Guadiana — uma adução Nisa–Caia que a CCDR Alentejo estima poder transferir cerca de 150 hectómetros cúbicos de água por ano, para expandir em mais de 50 mil hectares o regadio associado a Alqueva. O projeto está, para já, em fase de estudo, mas junta-se a transvases já em funcionamento do lado espanhol — incluindo o Tejo-Segura, que desvia 80% do caudal da cabeceira do Tejo —, aprofundando um padrão de décadas de retirada de água da bacia do Tejo para outras regiões.

“Nenhuma destas quatro pressões foi avaliada em conjunto com o impacto dos centros de dados de Abrantes — nem entre si. É essa ausência de visão de conjunto que o proTEJO também aqui denuncia: um rio não se gere pressão a pressão, projeto a projeto.”

OS 8 RISCOS MAIS CRÍTICOS

Zero avaliação prévia — a decisão de viabilidade urbanística de ambos os projetos foi tomada sem qualquer Estudo de Impacte Ambiental.

Zero avaliação conjunta — nenhuma entidade avaliou, até hoje, o efeito cumulativo dos dois centros de dados sobre a mesma bacia e a mesma rede elétrica.

Tecnologia por revelar — a variável que mais pesa na fatura de consumo de água do rio Tejo continua desconhecida do público, meses depois da aprovação do primeiro projeto.

Calendário coincidente com a seca — a entrada em funcionamento dos dois projetos (2028-2030) sobrepõe-se exatamente ao pico de escassez hídrica previsto pela APA para a bacia do Tejo.

Um regime-piloto ao serviço de fins industriais — a Zona Livre Tecnológica do Pego, pensada para pequena escala experimental, está a enquadrar dois dos maiores investimentos industriais alguma vez propostos para a região.

Ausência de limites máximos legais de consumo em Portugal — ao contrário de Espanha, nenhum diploma português fixa um valor máximo de PUE ou de WUE; a decisão fica, na prática, ao critério de cada promotor.

Regime de penalizações português limitado ao reporte, não ao desempenho — o Decreto-Lei n.º 84/2024 pune a falta de comunicação de dados, não o incumprimento de metas ambientais.

Pressões que se somam sem avaliação conjunta — bombagem reversível em Espanha, novas barragens e açudes no rio Tejo em Portugal e um transvase da bacia do Tejo para a bacia do Guadiana avançam em paralelo aos centros de dados, sem que nenhuma entidade tenha avaliado o efeito cumulativo destes projetos sobre o rio Tejo.

UM MOVIMENTO, NÃO APENAS UM DOCUMENTO

Esta tomada de posição soma-se aos cerca de dezassete anos de trabalho do proTEJO sobre os caudais ecológicos do Tejo e avaliação do cumprimento da Convenção de Albufeira. Um rio que já hoje regista incumprimentos persistentes dos caudais mínimos no seu troço internacional não pode, ao mesmo tempo, ser chamado a arrefecer, em silêncio, a inteligência artificial da Europa. O rio Tejo não é uma infraestrutura de reserva: é um rio vivo, com comunidades, ecossistemas e obrigações internacionais que têm de ser respeitadas antes de qualquer infraestrutura avançar — seja ela uma barragem, uma fábrica ou um centro de dados.

«Cada litro de água gasto a arrefecer um servidor é um litro que não chega ao rio Tejo. O proTEJO vai continuar a exigir que essa conta seja feita às claras e com responsabilidade — e antes, não depois, dos factos consumados.»

Em síntese, o proTEJO reconhece o valor da modernização digital do Médio Tejo, mas recusa que essa modernização avance às custas do rio.

· Posicionamento: exigência de Estudo de Impacte Ambiental cumulativo de todas as novas pressões sobre a bacia do Tejo, prévia ao licenciamento.

· 8 exigências centrais e 8 riscos prioritários identificados nesta nota.

proTEJO — Movimento pelo Tejo

Porta-vozes: Ana Silva (+351 922 273 439) e Paulo Constantino (+351 919 061 330)

Email:protejo.movimento@gmail.com | movimentoprotejo.blogspot.com

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

proTEJO alerta: novas barragens, açudes, transvases e centros de dados no Tejo avançam "às cegas", sem avaliação de impacto na gestão da água

NOTA DE IMPRENSA

 
18 de setembro de 2026

“proTEJO alerta: novas barragens, açudes, transvases e centros de dados no Tejo avançam "às cegas", sem avaliação de impacto na gestão da água"

O proTEJO – Movimento pelo Tejo apresenta hoje as suas alegações às Questões Significativas da Gestão da Água (QSiGA) do 4.º ciclo de planeamento hidrológico 2028/2033 da Região Hidrográfica do Tejo e Ribeiras do Oeste, em consulta pública pela Agência Portuguesa do Ambiente (APA).

Este documento sucede às alegações que o proTEJO apresentou em 15 de setembro de 2020 às QSiGA do 3.º ciclo (2022-2027), e retoma explicitamente a sua argumentação de fundo: a de que a gestão da água não pode continuar a ser pensada como um exercício técnico isolado das causas que estão a montante da crise ecológica — os modos de produção e consumo insustentáveis — sob pena de os planos de gestão de bacia hidrográfica se limitarem, ciclo após ciclo, a mitigar efeitos cada vez mais graves e complexos, sem nunca travarem as suas causas. Mantemos, seis anos depois, a mesma convicção: sem ecologia não há biologia, e sem a preservação das condições que sustentam os ecossistemas não há Sustentabilidade da Vida — nem qualquer sustentabilidade económica ou social que a substitua.

“Sem ecologia não há biologia — e sem caudais ecológicos e conectividade fluvial não há futuro para a bacia do Tejo.”

O movimento proTEJO recorda que a análise destas questões tem como objetivo principal avaliar as medidas a adotar para atingir o bom estado ecológico de todas as massas de água, objetivo que não tem sido alcançado, uma vez que nos relatórios entre ciclos de planeamento se constata uma deterioração crescente. Por isso constitui para nós um uma obrigação de lançar um alerta sobre os indicadores oficiais agora publicados que confirmam uma bacia hidrográfica sob pressão crítica — precisamente quando é lançado, sem qualquer avaliação, um investimento superior a 5.000 milhões de euros em novas barragens e açudes nos últimos troços livres do rio Tejo.

  O QUE O proTEJO OBSERVA E EXIGE

1. Os números divulgados pela própria APA são alarmantes:

a. O estado das águas subterrâneas da bacia degradou-se de forma acentuada: segundo os dados oficiais, a percentagem de massas de água subterrânea em bom estado caiu de cerca de 90% para cerca de 60% entre os dois últimos ciclos de planeamento — e metade das massas de água subterrânea da região está hoje classificada como estando "em risco".

b. 98% das grandes barragens da bacia do Tejo não têm qualquer dispositivo que permita a passagem de peixes, e 93% não têm um regime de caudais ecológicos definido — os dois piores indicadores de toda a análise, revelando valores que não melhoraram desde o ciclo de planeamento anterior.

“São os piores indicadores desde o ciclo de planeamento anterior. Não é uma estatística. É um rio que perde, ciclo após ciclo, a capacidade de se regenerar a si próprio.”

2. Nenhum documento oficial das QSiGA do 4.º ciclo menciona o programa "Água Que Une", que prevê a construção da barragem do Alvito, no rio Ocreza, do açude de Constância / Praia do Ribatejo, no rio Tejo, e do transvase da bacia do Tejo para a sub-bacia do Caia, na bacia do Guadiana, o Programa Nacional de Regadio, os projetos de dois centros de dados anunciados para o concelho de Abrantes — Hyperion, em Alvega, e EDC One, no Pego, e o Plano Nacional de Restauro da Natureza. Além disso, não existe referência ao “Projeto Tejo” de mais quatro açudes e duas barragens nos últimos 127 quilómetros de rio Tejo ainda livre entre Abrantes e Lisboa.

3. O proTEJO exige que estes programas e projetos sejam formalmente avaliado face às próprias questões significativas da água — caudais ecológicos, conectividade fluvial, escassez de água e alterações do regime hidrológico — antes de qualquer decisão de aprovação, e pede a suspensão cautelar de novas infraestruturas hidráulicas até essa avaliação estar concluída.

“Não é possível planear como alcançar o bom estado das massas de água, repetindo cegamente soluções que são parte importante do problema, nem planear caudais ecológicos e conectividade fluvial para a bacia do Tejo com base num documento que ignora, por completo, o maior programa de novas barragens e transvases em preparação para esse mesmo rio.”

  O QUE O proTEJO APOIA

Dois pedidos históricos do proTEJO foram, pela primeira vez, formalmente acolhidos: a APA criou uma QSiGA autónoma dedicada à cooperação transfronteiriça com Espanha — tema que o proTEJO reclamava desde 2020 — e uma nova QSiGA que obriga a articular o Plano de Gestão da Região Hidrográfica (PGRH) com outros instrumentos de planeamento do território. São passos que o movimento saúda expressamente.

O Que a Europa Já Sabe Fazer

O proTEJO recorda que, em 2025, foram removidas na Europa mais de 600 barreiras fluviais, reabrindo mais de 3.700 km de rios — o quinto ano consecutivo de máximos históricos nesta matéria, alinhado com a meta europeia de 25.000 km de rios livres até 2030 da Estratégia Europeia para a Biodiversidade. Casos como o do rio Sélune, em França, ou do rio Isar, em Munique, demonstram que a remoção de barragens obsoletas devolve aos rios espécies migradoras, qualidade da água e valor para as populações ribeirinhas.

É essa a direção que o proTEJO pede para a bacia do Tejo — não à construção de novas barreiras no seu último troço ainda livre em Portugal, nem ao esgotamento do seu caudal de água pela computação em centros de dados.

Um movimento, não apenas um documento

Há cerca de dezassete anos que o proTEJO acompanha os processos de planeamento da gestão da água na bacia do Tejo e decidiu apresentar os seus pontos de reconhecimento e de discordância quanto ao documento das Questões Significativas da Água do 4.º ciclo, submetendo as suas alegações formais à Agência Portuguesa do Ambiente por uma questão de responsabilidade cidadã.

A Vida que o Tejo sustenta merece mais do que silêncio!

Ver Alegações do proTEJO às Questões Significativas da Água do 4.º ciclo de planeamento 2028/2033

Contactos para a imprensa

Ana Silva — Porta-voz do proTEJO — +351 922 273 439

Paulo Constantino — Porta-voz do proTEJO — +351 919 061 330

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